Vídeo Institucional ASF
A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), no contexto da aprovação do seu plano estratégico 2026-2028, determinou como objetivo orientar a supervisão da conduta de mercado para a garantia de resultados justos para o consumidor, nomeadamente garantindo uma proteção substantiva, que se traduza em soluções adequadas e equitativas.
A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões está a recrutar Estagiários(as) Profissionais.
O Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF) reuniu-se no dia 22 de junho de 2026, nas suas instalações, na Avenida da República.
Bom dia a todos,
Permitam-me, em primeiro lugar, dirigir uma saudação especial ao Senhor Governador do Banco de Cabo Verde e, na sua pessoa, a toda a equipa aqui presente, aproveitando para felicitar o Banco pelo quinquagésimo aniversário do início pleno das suas atividades.
Gostaria também de cumprimentar os representantes do mercado e da academia, aqui presentes, bem como todos os participantes neste evento que assinala esta ocasião especial.
Agradeço, de forma muito especial, o amável convite do Banco de Cabo Verde para partilhar a minha perspetiva enquanto keynote speaker num evento centrado no papel dos seguros na gestão dos riscos das alterações climáticas, um tema particularmente atual e cuja relevância, estou convicta, nunca foi tão evidente como hoje.
É, por isso, com muito gosto que aqui participo.
Minhas senhoras e meus senhores,
Estruturei esta reflexão em quatro pontos, começando pelo mercado internacional dos seguros, com referência aos principais indicadores do contexto atual.
No segundo ponto, abordarei as evoluções recentes que decorrem das mudanças dos fatores de risco e o seu impacto no mercado segurador.
Farei também referência, no terceiro ponto, ao enquadramento legal e regulamentar dos riscos climáticos, que nos trazem hoje aqui, e às boas práticas.
E terminarei, num quarto ponto, com os desafios atuais e propostas de soluções, incluindo as principais inovações e os desenvolvimentos no mercado internacional, no âmbito do qual farei também referência ao “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas”, a solução pensada para os principais riscos catastróficos no mercado português.
Começando, então, pelo contexto atual, penso que estaremos todos de acordo em que as alterações climáticas constituem hoje um dos principais fatores de mudança a nível global. O mundo está em mudança, e esta reflete-se hoje, de forma cada vez mais nítida, no mercado segurador.
Não me refiro a um cenário distante, nem a uma projeção para 2050 ou para o final do século. Refiro-me ao presente.
Os últimos anos consolidaram um novo patamar de perdas seguras associadas a catástrofes naturais. Em 2024, essas perdas ascenderam a cerca de 140 mil milhões de dólares. Tratou-se do terceiro ano mais dispendioso para a indústria desde 1980, com os eventos meteorológicos a explicarem perto de 97% do total.
O mais revelador, contudo, não são os valores de anos isolados, mas o padrão da sua regularidade: 2024 foi o quinto ano consecutivo acima dos 100 mil milhões de dólares em perdas seguras.
Em 2025, mesmo sem um grande furacão, a habitual frequência de tempestades convectivas, a que acresceram os grandes incêndios em Los Angeles, levaram as perdas seguradas a cerca de 107 mil milhões de dólares — gerando o sexto ano consecutivo acima daquele patamar.
Perante estes números, e numa linguagem mais estatística, podemos concluir que aquilo a que durante anos chamámos a cauda da distribuição passou, simplesmente, a fazer parte do corpo da distribuição.
A tendência estrutural é inequívoca: de acordo com a Swiss Re, nas últimas três décadas, as perdas seguras por catástrofes naturais cresceram, em termos reais, a um ritmo de 5% a 7% ao ano, muito acima, portanto, do crescimento da própria economia.
Contudo, por trás destes valores está ainda um gap de proteção que continua a ser a maior fragilidade de todo o sistema. Em 2024, das perdas económicas globais de cerca de 318 mil milhões de dólares, mais de metade, 57%, não estavam seguras.
Este panorama não resulta apenas da soma dos eventos para um conjunto de países. Permitam-me trazer a esta reflexão a experiência portuguesa recente.
Entre 22 de janeiro e 8 de fevereiro deste ano, Portugal foi atingido por um verdadeiro “comboio de tempestades”, que incluiu as depressões Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta, destacando-se a depressão Kristin, que atravessou Portugal continental na madrugada de 28 de janeiro e foi considerada a mais violenta, gerando rajadas de vento à superfície superiores a 170 km/h e chegando em alguns locais a ultrapassar os 200 km/h.
Para contextualizar a severidade deste evento, comparando-o com fenómenos recentes da mesma natureza, podemos tomar como referência a tempestade Martinho, ocorrida em março de 2025, cujos danos económicos foram estimados entre 215 e 270 milhões de dólares. Destes, cerca de 70 milhões ficaram a cargo do mercado segurador, na sequência da aproximadamente 27 mil sinistros, maioritariamente relacionados com seguros de habitações e de atividades comerciais e industriais.
Por sua vez, a tempestade Leslie, em outubro de 2018, representou danos económicos estimados na ordem dos 135 a 170 milhões de dólares, dos quais perto de 80 milhões corresponderam a indemnizações ao abrigo de contratos de seguro que deram origem a 28 mil sinistros, também neste caso correspondentes maioritariamente a seguros de habitações e de atividades comerciais e industriais.
O recente “comboio de tempestades” ultrapassou todos os eventos meteorológicos portugueses modernos em danos económicos, estimados atualmente em cerca de 7 mil milhões de dólares. Do lado do mercado segurador, registam-se mais de 210 mil sinistros com perdas seguras estimadas na ordem dos 1,5 mil milhões de dólares. Ou seja, temos cerca de 5,5 mil milhões de dólares não seguros, aproximadamente 540 mil milhões de escudos cabo-verdianos, para termos uma noção mais exata do impacto na sociedade: quase 80% da totalidade das perdas económicas.
Passando às evoluções recentes e à mudança dos fatores de risco, o segundo ponto da minha intervenção.
Para compreender o que está verdadeiramente a mudar, regresso à própria linguagem do risco. Este resulta do produto de três fatores: perigosidade, vulnerabilidade e exposição. Não é apenas um deles que se está a deslocar — são os três em simultâneo e no mesmo sentido. E é essa simultaneidade que torna o problema tão desafiante.
A perigosidade está a aumentar, tanto na frequência como na severidade dos eventos. Destaco um deslocamento que determina que uma fatia crescente das perdas provém já dos chamados riscos secundários, ou “perigos não-pico”. Estes correspondem a tempestades convectivas, cheias urbanas, incêndios rurais. Só em 2024, estes perigos representaram cerca de 67 mil milhões de dólares em perdas seguras. Constituem eventos individualmente menos agudos, mas que, pela sua maior frequência, vão gerando danos de uma forma mais contínua.
A vulnerabilidade, por seu turno, não acompanhou, ou seja, não compensou, o ritmo: os progressos na adaptação climática têm sido limitados. Continuamos a construir, a reabilitar e a ordenar o território como se o clima do futuro fosse idêntico ao clima do passado. Cada edifício ou infraestrutura que não se adapte à nova realidade climática é uma vulnerabilidade herdada.
Ao mesmo tempo, a exposição mantém uma trajetória continuada de acumulação de bens e de pessoas em zonas de risco elevado. Litorais, leitos de cheia, interfaces urbano-florestais concentram grande parte do valor económico que é pedido ao setor segurador que proteja.
No conjunto, as alterações climáticas não se limitam a tornar o risco maior, alteram a própria configuração. As alterações climáticas alteram as distribuições de probabilidades de cada risco, alteram as correlações entre riscos e tornam a experiência passada cada vez menos fiável para estimar o futuro. Para um setor como o segurador, que se construiu identificando padrões e tendências em séries históricas, esta é uma transformação profunda, que exige uma abordagem evolutiva.
Perante estas alterações, e passando ao terceiro ponto, os reguladores estão a fomentar uma maior integração dos riscos climáticos nos sistemas de governação. Esta trajetória reconfigura a forma como os riscos climáticos entram na gestão, no capital e na própria supervisão das empresas de seguros.
No regime prudencial aplicável a nível europeu, o regime “Solvência II” –, o tratamento dos riscos de sustentabilidade ganhou densidade, sobretudo por via da revisão recentemente aprovada. A revisão consagra de forma explícita a análise de cenários climáticos no ORSA – exercício de autoavaliação de riscos e solvência –, incluindo cenários com diferentes trajetórias climáticas, em que o sobreaquecimento global se mantém abaixo dos 2° C e em que os ultrapassa significativamente.
Ainda no plano regulatório prudencial, a autoridade europeia de seguros, a EIOPA, vem também investigando potenciais evidências para um tratamento de capital dedicado em Pilar I, relativo aos riscos quantitativos, em função de atributos climáticos. A ideia base é a de que exposições com maiores riscos climáticos possam exigir mais capital, fruto do maior risco. Contudo, a sua materialização ainda depende de concretização futura adicional. É uma conclusão prudente: reconhece-se que o risco existe, mas não foi ainda possível calibrá-lo com a confiança que um requisito de capital exige. Assim, o foco primordial tem consistido no reforço do Pilar II, que diz respeito aos requisitos qualitativos e à governação, enfatizando as necessidades de progresso na governação e gestão de risco. Paralelamente, prossegue o processo regular de recalibração dos parâmetros de catástrofe natural na fórmula-padrão, e a constatação de que os modelos de risco ainda ignoram, na maioria dos casos, o efeito mitigador das medidas de adaptação.
As boas práticas emergentes assentam, em larga medida, em dois instrumentos complementares: os cenários climáticos e os stress tests. Os cenários do Network of Central Banks and Supervisors for Greening the Financial System (NGFS) — a rede que reúne atualmente mais de 140 bancos centrais e supervisores financeiros — permitem um referencial comum, com várias gerações de cenários climáticos futuros, plausíveis e distintos, disponibilizados ao longo do tempo. O exercício de análise de cenário climático “Fit-for-55”, conduzido pelas autoridades europeias de supervisão e pelo BCE, consistindo numa análise de sensibilidade top-down, conjunta a vários segmentos do setor financeiro (incluindo o setor segurador), mostrou que o risco climático de transição combinado com choques macroeconómicos pode amplificar perdas de forma relevante.
Sem prejuízo destes progressos na compreensão prospetiva do risco, é fundamental recordar a elevada incerteza que persiste. Estes cenários são instrumentos de raciocínio sob incerteza, não previsões. Este não é, contudo, um argumento para a inação, mas sim um fundamento para a prudência e necessidade de revisão contínua.
Os reguladores estão a nutrir as condições para uma integração crescente destes riscos nos sistemas de governação, sendo essa necessidade de integração irreversível. A questão já não é se o risco climático deve entrar na governação das empresas de seguros, mas sim o rigor, completude e rapidez com que o faz.
Passando ao quarto e último ponto, desafios e possíveis soluções, importa salientar que a questão decisiva é continuar a conseguir transferir o risco, a partir da economia e das famílias, a um preço comportável, e não apenas medi-lo de forma rigorosa.
É precisamente nesse aspeto que o problema se torna social e económico, e não apenas técnico. Atualmente, e como vimos, apenas uma parcela minoritária das perdas se encontra segura. Na ausência de ação, esse gap irá aumentar, fruto das alterações climáticas. Contudo, na ausência de adaptação climática palpável e em escala, essas mesmas alterações climáticas tendem a tornar a transferência de risco mais onerosa, o que se reflete diretamente no custo dos prémios, e no esforço que o seu pagamento representa para os rendimentos disponíveis das famílias e empresas.
O mercado segurador tem respondido com inovação na transferência de risco: soluções paramétricas, obrigações de catástrofe e, de forma mais ampla, os valores mobiliários ligados a seguros. O mercado de obrigações de catástrofe tem batido sucessivos recordes, com volumes de emissão históricos, de cerca de 25 mil milhões de dólares, em 2025 (batendo o recorde do ano anterior, de cerca de 18 mil milhões de dólares), e um montante total em aberto superior a 60 mil milhões de dólares, no final desse ano. O volume total tem-se mantido em crescimento nos primeiros meses de 2026.
Os instrumentos de natureza paramétrica vêm também provando o seu valor, com a agilização da velocidade de pagamento às populações afetas a ser, ela própria, uma forma de resiliência.
Estas soluções inovadoras que o mercado segurador tem encontrado, inclusivamente com a transferência de riscos climáticos para os mercados financeiros, não dispensam, porém, camadas de backstop e esquemas de partilha do risco entre o setor privado e a esfera pública. Em abril de 2026, a EIOPA e o Mecanismo Europeu de Estabilização (ESM) avançaram com uma análise de pool de riscos catastróficos ao nível europeu, contemplando camadas de apoio público que podem assentar, por exemplo, em mecanismos baseados de empréstimo, previamente acordados junto de parceiros como bancos de fomento. Há riscos de cauda que os balanços privados não conseguem suportar isoladamente, e cuja não-cobertura acaba, de uma forma ou de outra, por impactar a esfera pública. Para enfrentar essas situações, estas camadas de backstop baseadas em empréstimos contingentes (à ocorrência de um evento catastrófico), a condições pré-acordadas, são uma solução a ter em conta.
É precisamente nesta articulação entre o mercado segurador e a esfera pública que se incluem os recentes desenvolvimentos para o estabelecimento de um sistema de resiliência contra catástrofes naturais em Portugal – o “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas”. Esta solução procura dar resposta direta a vários desafios através das oportunidades de inovação que referi anteriormente.
O “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas” é um sistema assente em três pilares: resiliência, solidariedade e adaptação. Dirige-se a riscos de catástrofe natural, incluindo risco sísmico e riscos climáticos. O primeiro pilar inclui a estrutura financeira para a gestão dos riscos, promovendo a diversificação e a gestão eficiente de riscos de uma pool alargada. O segundo pilar foca-se na inclusividade do sistema, com soluções previstas para a resolução das dificuldades da acessibilidade ao custo dos prémios por parte das famílias financeiramente mais vulneráveis. O terceiro pilar foca-se na adaptação climática, de modo a conter o potencial alargamento adicional das perdas económicas decorrentes de catástrofes, promover comportamentos responsáveis, e cimentar uma resposta conjunta entre redução intrínseca dos riscos e a preparação de uma estrutura financeira para financiar a resposta às perdas que persistam.
Para dar resposta às lacunas de proteção financeira existentes, é necessário aumentar a penetração dos seguros, mas também providenciar mecanismos e incentivos que permitam conter a acumulação adicional de bens nas zonas de maior risco e mitigar as debilidades que existem no edificado. Em suma, é necessário caminhar na resolução do problema atual enquanto prevenimos que este se agudize adicionalmente, sobretudo em resultado das alterações climáticas.
Este sistema visa uma distribuição das consequências das catástrofes naturais entre todas as partes: agentes económicos, empresas de seguros e Estado – num contexto de sustentabilidade atuarial, que permita a saúde financeira de um sistema que pratica prémios baseados no risco subjacente. Desta forma, assegura-se uma responsabilização transversal para enfrentar um desafio comum, com o benefício de uma resposta assente em preparação prévia, ao invés de resposta desencadeada pela reação em urgência a um evento catastrófico já ocorrido.
Para concluir, deixo a seguinte reflexão:
O setor segurador nunca está verdadeiramente de fora das consequências dos riscos climáticos. Em primeira linha, e de forma mais óbvia, está exposto como subscritor de riscos quando suporta as perdas. E está exposto como investidor de longo prazo, quando os ativos que detém sofrem o risco físico e o risco de transição.
Mas de uma forma indireta – e que pode passar mais despercebida – está exposto porque as famílias e as empresas são os seus parceiros de atividade. Se estes se mantiverem desprotegidos face aos riscos climáticos, as perdas diretas decorrentes do pagamento de indemnizações serão menores, mas como será o futuro depois do evento catastrófico? Quais serão os efeitos para o negócio segurador da disrupção de atividade económica e do emprego, do recuo da capacidade de investimento e consumo, da destruição de bens seguros face a outros riscos, do retrocesso na capacidade de contratar outros seguros, como os de saúde, das poupanças investidas junto do setor segurador a serem resgatadas de emergência para fazer face a despesas de primeira necessidade, desencadeando fortes riscos de liquidez?
Estas são apenas algumas das consequências da passividade face aos riscos climáticos.
Finalizo então com a questão: estamos dispostos a reconhecer as mudanças em curso e a agir enquanto a resposta ainda pode depender de nós? O setor segurador vai escolher lidar com as alterações climáticas de uma forma ativa, ou absorver as consequências de uma ação insuficiente?
Muito obrigada pela vossa atenção.
O Presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), Dr. Gabriel Bernardino, publicou recentemente um artigo na revista InforBanca, no qual partilha uma reflexão sobre o setor segurador português, a sua atual resiliência e os desafios estruturais que irão moldar o seu futuro.
Segundo o Presidente da ASF, apesar de sólido e bem capitalizado, o setor enfrenta lacunas relevantes ao nível da proteção contra catástrofes naturais, da poupança para a reforma e dos riscos cibernéticos, exigindo uma visão de longo prazo, decisões exigentes e enquadramentos institucionais claros.
Consulte o artigo na revista InforBanca
Minhas senhoras e meus senhores,
É com enorme satisfação que volto a participar na Seguros Summit, agradecendo o amável convite formulado pelo Jornal Económico. Em particular porque este evento é dedicado a um tema que considero de especial relevância para o setor segurador e para a sociedade em geral, a longevidade.
Este é aliás um tema que está no centro do plano estratégico da ASF 2026-2028. Com efeito, um dos nossos objetivos estratégicos é precisamente “Adaptar a regulação aos desafios da longevidade para promover a proteção e a autonomia dos cidadãos”. Neste contexto, o nosso desafio é criar condições regulatórias para que o mercado responda às necessidades da longevidade, priorizando enquadramentos para a "desacumulação inteligente" da poupança, para o incremento da proteção dos tomadores de seguros de saúde, designadamente através de seguros de longo prazo e para o desenvolvimento de soluções como a hipoteca inversa, garantindo mais dignidade e autonomia aos cidadãos.
Mas porquê tanta atenção a este tema? Porque nunca na história da humanidade vivemos tanto e nunca estivemos tão pouco preparados para o que isso significa.
Em Portugal, segundo dados do Eurostat, a esperança de vida à nascença tem vindo a aumentar de forma consistente, atingindo 82,5 anos em 2024, um ano acima da média da União Europeia. Este progresso é particularmente expressivo quando recordamos que, no início da década de 1980, a esperança média de vida era de 71,5 anos. Em pouco mais de quatro décadas, ganhámos cerca de onze anos de vida.
A longevidade não resulta de um único fator, mas de um equilíbrio entre saúde, condições sociais, comportamentos individuais e inovação tecnológica. É precisamente essa complexidade que torna o seu impacto tão profundo e tão desafiante de gerir.
Viver mais tempo implica lidar com maior prevalência de doenças crónicas, maior pressão sobre sistemas de saúde e pensões e, sobretudo, a necessidade de garantir qualidade de vida por mais anos. É aqui que o setor segurador pode ter um papel decisivo, ajustando produtos e serviços às necessidades de uma população mais envelhecida.
A transformação já está em curso. O setor deixa de se limitar a cobrir riscos isolados e passa a ser chamado a apoiar trajetórias de vida mais longas, que exigem autonomia e segurança financeira ao longo do tempo. Isso implica soluções mais integradas, que combinem proteção, poupança e serviços.
Uma mudança particularmente relevante é a maior proximidade entre seguros de vida e de saúde. Com o apoio da tecnologia e dos dados, o foco desloca-se de uma lógica reativa para uma abordagem mais preventiva. Já não se trata apenas de compensar riscos, mas de ajudar a evitá-los e a promover estilos de vida mais saudáveis.
Também na poupança para a reforma surgem desafios novos. Percursos profissionais mais irregulares e maior incerteza económica exigem produtos mais flexíveis e acessíveis, que se adaptem ao longo do tempo e distribuam melhor o risco entre clientes e seguradoras.
Ao mesmo tempo, começam a ganhar espaço soluções que integram diferentes necessidades numa só proposta, proteção em caso de morte, mas também apoio em doença, dependência ou cuidados prolongados. Estas ofertas são mais ajustadas à realidade atual, mas colocam um desafio adicional: a sua compreensão pelos consumidores, o que reforça a importância da literacia financeira e de uma comunicação clara.
A área dos cuidados de longa duração merece especial destaque. Trata-se de um risco difícil de antecipar e gerir, que continuará a exigir um papel relevante do Estado. Ainda assim, o setor privado pode contribuir com soluções complementares, sobretudo em situações de maior duração ou custo, muitas vezes privilegiando a permanência em casa e a autonomia.
Por outro lado, a própria ideia de reforma está a mudar. Em vez de uma rutura, começa a emergir um modelo mais gradual, em que trabalho e reforma coexistem. O setor segurador pode acompanhar esta transição, apoiando pessoas e empresas na adaptação a carreiras mais longas.
A inovação tecnológica é outra peça central desta transformação. A utilização de dados e de modelos analíticos permite conhecer melhor os riscos, antecipar necessidades e personalizar soluções. Isto traduz-se em produtos mais ajustados às trajetórias individuais, mas também levanta questões importantes.
Desde logo, a necessidade de equilibrar personalização com equidade. O uso intensivo de dados exige transparência, responsabilidade e respeito por princípios essenciais, como o acesso à proteção e a mutualização do risco. A confiança dos consumidores dependerá, em grande medida, desta capacidade de equilíbrio.
Aqui, a regulação tem um papel fundamental: não travar a inovação, mas enquadrá-la, garantindo que se desenvolve de forma segura, justa e sustentável.
Em síntese, a longevidade representa não apenas um desafio, mas uma oportunidade para repensar o setor segurador. Mais do que gerir riscos, trata-se de contribuir para vidas mais longas, mais saudáveis e financeiramente mais seguras. O verdadeiro desafio será garantir que a inovação e a tecnologia são utilizadas de forma inclusiva e responsável, transformando o aumento da esperança de vida num progresso efetivo para a sociedade.
Na Europa, a resposta do setor segurador ao desafio da longevidade tem vindo a materializar-se em várias linhas de inovação complementares.
No Reino Unido, desenvolveu-se um mercado avançado de gestão do risco de longevidade. Em termos simples, fundos de pensões e empresas podem transferir para seguradoras o risco de as pessoas viverem mais do que o esperado. Isso permite-lhes tornar mais previsíveis as suas responsabilidades futuras e libertar recursos. A principal inovação está em tratar a longevidade como um risco que pode ser gerido e transferido no mercado, trazendo maior estabilidade a compromissos de muito longo prazo.
Nos Países Baixos, observa-se uma abordagem mais centrada no cliente, baseada na criação de ecossistemas integrados para a população sénior. Algumas seguradoras têm vindo a combinar produtos de seguro com serviços de saúde, assistência e apoio domiciliário, promovendo soluções que permitem às pessoas envelhecer em casa com maior autonomia. Aqui, a inovação está na integração de diferentes dimensões, proteção, cuidados e bem‑estar, numa única proposta, orientada para prolongar a vida com qualidade e reduzir a necessidade de institucionalização.
Ao mesmo tempo, nestes dois países emergem soluções inovadoras na fase de reforma, particularmente ao nível da desacumulação, que permitem transformar a poupança acumulada em rendimento de forma flexível, combinando componentes de liquidez com mecanismos de rendimento vitalício. Esta abordagem substitui modelos rígidos por trajetórias ajustáveis ao longo do tempo, permitindo uma gestão mais eficiente do risco de longevidade e maior alinhamento com as necessidades individuais.
Em França, a inovação tem-se focado na resposta à dependência, combinando seguros com serviços de apoio. Estas soluções asseguram não só prestações financeiras em caso de perda de autonomia, mas também acesso a cuidados, apoio domiciliário e aconselhamento às famílias. A principal mais-valia está nesta ligação entre proteção financeira e apoio concreto, permitindo responder de forma mais completa a um risco crescente e difícil de prever.
Já na Alemanha, a resposta aos desafios da longevidade assenta num sistema público obrigatório, complementado por seguros de saúde privados de cuidados de longa duração. Estas soluções ajudam a colmatar lacunas, oferecendo rendimento adicional ou serviços de apoio quando a autonomia diminui. Este modelo de complementaridade permite partilhar responsabilidades entre o Estado e o setor privado e favorece respostas que valorizam a permanência no domicílio e a qualidade de vida numa sociedade cada vez mais longeva.
Em Espanha e em Itália, observa‑se uma dinâmica de desenvolvimento particularmente acelerada, impulsionada pelo rápido envelhecimento da população. Nestes mercados, tem vindo a reforçar‑se a aposta em serviços direcionados para seniores, na integração entre saúde e seguros e em soluções de poupança mais flexíveis. Embora ainda não apresentem o mesmo grau de sofisticação de outros países europeus, revelam um dinamismo crescente e uma clara evolução para modelos mais adaptados a vidas mais longas.
Fora da Europa, a China destaca-se pela forma como tem respondido ao envelhecimento da população em larga escala. Algumas seguradoras têm vindo a criar verdadeiros “campus de longevidade”, que integram habitação, cuidados de saúde e serviços de bem‑estar. O acesso a estas soluções está muitas vezes ligado a produtos de poupança ou seguros de vida, ligando a preparação financeira ao apoio na velhice. A principal inovação está nesta abordagem integrada, em que o seguro deixa de ser apenas proteção e passa a garantir acesso a um conjunto de respostas que acompanham a vida mais longa.
Em Portugal, o desenvolvimento tem sido mais gradual, mas já visível. Na poupança para a reforma, têm surgido soluções mais flexíveis, que permitem não só acumular poupança, mas também utilizá-la de forma gradual, através de resgates parciais ou rendimentos ao longo do tempo.
Na área da saúde, alguns seguradores têm reforçado os serviços associados, com programas de prevenção, acompanhamento de doenças crónicas e telemedicina, promovendo uma gestão mais contínua da saúde ao longo da vida. Em alguns casos, estes serviços incluem também apoio domiciliário, aproximando-se de soluções mais integradas que ajudam a manter a autonomia por mais tempo.
Nos cuidados de longa duração, apesar de ainda haver pouca oferta autónoma, começam a surgir soluções que combinam seguros com serviços de assistência, sobretudo para situações de dependência ou necessidade de cuidados em casa. Ao mesmo tempo, têm crescido as residências sénior e formas de habitação assistida, por vezes ligadas a serviços de saúde e bem‑estar. Ainda que nem sempre integradas com seguros, estas respostas apontam para uma tendência clara: a aproximação entre proteção financeira, cuidados e serviços, acompanhando melhor uma vida cada vez mais longa.
Este desenvolvimento mais gradual em Portugal reflete alguns fatores estruturais, como a menor escala do mercado, o peso ainda significativo dos sistemas públicos e níveis mais baixos de poupança de longo prazo. Ainda assim, estas condições não constituem um bloqueio, mas sim um ponto de partida diferente, que poderá moldar uma trajetória própria.
Essa evolução passará, provavelmente, por uma combinação de fatores: maior colaboração entre setores, uso da tecnologia e desenvolvimento progressivo de soluções mais integradas. Não existe um modelo único, mas antes um caminho de adaptação à realidade do nosso mercado.
Para que o setor segurador possa responder melhor ao desafio da longevidade, julgo relevante que sejam efetuados alguns ajustamentos no enquadramento legislativo e regulamentar. Destaco três prioridades: maior flexibilidade na fase de desacumulação dos produtos de poupança para a reforma; um enquadramento mais claro e estimulante para soluções de dependência e cuidados de longa duração; e regras que permitam aproveitar melhor o potencial dos dados e da tecnologia, garantindo simultaneamente confiança e proteção dos consumidores.
A isto soma-se a importância de facilitar a integração entre seguros e serviços, bem como de criar condições para o investimento em ativos de longo prazo ligados à economia da longevidade. No essencial, trata-se de adaptar o quadro atual, e não de o reinventar, para permitir mais inovação e melhores respostas a uma sociedade que vive cada vez mais tempo.
Em suma, o setor segurador tem uma oportunidade muito relevante: afirmar-se como um parceiro na gestão de um dos grandes riscos das sociedades modernas.
Para isso, haverá uma condição essencial, a confiança. Num contexto de decisões de longo prazo, os consumidores precisam de clareza, transparência e sentido de compromisso. Mais do que vender produtos, será fundamental construir relações duradouras, centradas nas necessidades das pessoas.
Se conseguirmos fazê-lo, estaremos não apenas a responder ao desafio da longevidade, mas a transformar este progresso num verdadeiro ganho para a sociedade.
Espero que estejamos à altura desse desafio.
Muito obrigado.
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