Para uma pesquisa mais direcionada, coloque o termo a pesquisar entre aspas.
Exemplo: "Circular n.º 8/2021"

Migalhas de pão

Relatório da ASF conclui que setor segurador respondeu de forma globalmente robusta e identifica medidas para reforçar a proteção do país

Seis meses após a tempestade Kristin, o evento mais severo do denominado “comboio de tempestades” que atingiu Portugal entre janeiro e fevereiro de 2026, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) divulga hoje um relatório que analisa o papel desempenhado pelo setor segurador durante esta crise sem precedentes, identifica as principais lições aprendidas e apresenta recomendações destinadas a reforçar a preparação para futuros eventos extremos.

O “comboio de tempestades” provocou perdas globais estimadas atualmente em cerca de 5,3 mil milhões de euros, dos quais apenas 26% se encontram cobertas pelo setor segurador, revelando uma significativa lacuna de proteção na sociedade portuguesa. 

No âmbito segurador, este evento originou 218 mil sinistros e 1,4 mil milhões de euros de perdas seguras, constituindo um dos maiores testes alguma vez enfrentados pelo setor. Apesar da dimensão excecional do evento, o balanço é globalmente positivo. Mais de 99% dos sinistros já foram objeto de peritagem, cerca de 85% dos processos já se encontram encerrados e as seguradoras já indemnizaram mais de 80% dos prejuízos estimados no segmento da habitação, onde se concentrou a maioria das participações. Estes resultados comparam favoravelmente com os observados em eventos catastróficos semelhantes registados noutros países.

Para o Presidente da ASF, Gabriel Bernardino, "o relatório mostra que o setor segurador português respondeu de forma globalmente robusta ao teste mais exigente da sua história recente. Mas mostra também que Portugal continua a ter uma grande insuficiência de proteção: apenas 26% dos prejuízos provocados por estas tempestades estavam cobertos por seguros. Esta é uma vulnerabilidade económica e social que o país não pode ignorar. Precisamos de aumentar a resiliência das famílias, das empresas e da economia portuguesa face a fenómenos extremos que serão cada vez mais frequentes".

Como principal recomendação de natureza estrutural, a ASF propõe a criação de um Sistema Nacional de Proteção contra Catástrofes Naturais, assente numa lógica de responsabilidade partilhada entre cidadãos, empresas, setor segurador, resseguradores internacionais e Estado. Um sistema desta natureza contribuirá para reduzir a atual lacuna de proteção face aos riscos de catástrofes naturais e para reforçar a resiliência económica e social do país perante os impactos crescentes das alterações climáticas.

O relatório destaca igualmente a resiliência financeira do setor. Aproximadamente 91% das perdas seguras foram suportadas pelo mercado internacional de resseguro, demonstrando a eficácia do modelo de gestão de risco do setor segurador português. Graças a estes mecanismos de proteção, foi possível fazer face a prejuízos de dimensão excecional, assegurando o pagamento das indemnizações e preservando a solidez financeira das empresas de seguros.

A análise efetuada permitiu retirar importantes lições para o futuro. Ao nível da avaliação do risco, o evento evidenciou a necessidade de reforçar a adaptação e resiliência de edifícios e infraestruturas face a fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e severos. Do ponto de vista operacional, ficou demonstrada a capacidade do setor segurador para mobilizar recursos extraordinários e adaptar procedimentos em contexto de crise. Contudo, ficou igualmente patente a necessidade de reforçar a capacidade de resposta perante volumes excecionais de sinistros, nomeadamente através do reforço da capacidade de peritagem em situações excecionais, da aceleração da digitalização dos processos de regularização e da consolidação de mecanismos de adiantamento aos lesados.

Entre os desafios identificados destacam-se os sinistros empresariais de maior dimensão e complexidade. À semelhança do observado noutros eventos catastróficos internacionais, estes processos apresentam tempos de regularização mais longos devido à complexidade da avaliação dos danos materiais e das perdas de exploração. Ainda assim, uma parte significativa das empresas afetadas já recebeu adiantamentos de indemnização, contribuindo para apoiar a recuperação da atividade económica enquanto prossegue a quantificação integral dos prejuízos.

No domínio da proteção dos consumidores, o relatório identifica algum desalinhamento entre as expectativas dos segurados e o âmbito efetivo da proteção contratada, bem como oportunidades de melhoria na fundamentação de algumas decisões de regularização. Embora o número de reclamações tenha sido globalmente reduzido face à dimensão do evento e ao volume de sinistros participados, uma parte significativa das situações reportadas esteve associada à incompreensão de exclusões e limitações das apólices. Entre os temas que suscitaram maior conflitualidade destacam-se as exclusões relacionadas com infiltrações, alegada falta de manutenção, danos em elementos exteriores dos edifícios e situações de subseguro. 

De igual forma, a ASF considera essencial promover uma maior simplicidade e clareza dos contratos de seguro, uma melhor explicação das coberturas, exclusões e limitações, tarefa para a qual o papel dos mediadores de seguros é particularmente importante. O relatório recomenda igualmente o reforço da fundamentação das decisões de regularização, a disponibilização dos relatórios de peritagem aos segurados e o desenvolvimento de iniciativas de literacia sobre risco e seguro, contribuindo para uma melhor compreensão da proteção contratada e para o reforço da confiança no processo de regularização de sinistros.

 


Informação adicional

Porquê este Relatório?

A elaboração deste relatório assenta na convicção de que os eventos de grande dimensão devem ser objeto de uma avaliação rigorosa e estruturada, não apenas para analisar o que aconteceu, mas sobretudo para identificar lições aprendidas e oportunidades de melhoria. A sua elaboração constitui uma manifestação de maturidade institucional, assente na análise crítica da experiência, na transparência e na procura contínua de melhorias dos mecanismos de prevenção, resposta e recuperação.

Neste contexto, o relatório analisa a forma como o setor segurador respondeu ao “comboio de tempestades”, identificando os aspetos que revelaram maior robustez e aqueles que evidenciaram necessidade de aperfeiçoamento. Com base nessa análise, são formuladas recomendações concretas dirigidas aos diversos intervenientes do ecossistema segurador, entidades públicas e decisores políticos. O objetivo é contribuir para o reforço da capacidade de resposta do setor, da proteção dos consumidores e da resiliência do país perante futuros eventos extremos. A ASF acompanhará a implementação e evolução destas recomendações, promovendo uma reflexão continuada sobre as medidas necessárias para fortalecer o sistema segurador face aos crescentes desafios colocados pelos riscos climáticos.


Lacuna de proteção

O relatório confirma a existência de uma elevada lacuna de proteção em Portugal face a fenómenos naturais extremos. Embora as perdas económicas totais estejam atualmente estimadas em cerca de 5,3 mil milhões de euros, apenas cerca de 1,4 mil milhões de euros estavam protegidos por contratos de seguro, o que significa que aproximadamente 74% dos prejuízos ficaram sem cobertura seguradora. 
Com efeito, cerca de metade dos imóveis nas zonas mais afetadas não dispunha de cobertura adequada para danos em edifícios e apenas uma percentagem reduzida das empresas tinha proteção para perdas de exploração resultantes da interrupção da atividade. 


Reforçar a transparência e a proteção dos consumidores

O relatório identifica também dificuldades na compreensão das coberturas e exclusões dos contratos de seguro.

Apesar da dimensão do evento, o nível de reclamações manteve-se relativamente reduzido face ao volume de sinistros participados. Até ao início de julho de 2026, a ASF tinha aberto cerca de 260 processos de reclamação relacionados com o “comboio de tempestades”, equivalentes a aproximadamente 1,2 reclamações por cada mil sinistros nos seguros de incêndio e outros danos. Nas reclamações analisadas pela ASF, a intervenção do supervisor contribuiu para que cerca de 38% tivessem um desfecho favorável aos reclamantes.

As reclamações analisadas evidenciam, ainda assim, situações em que as expectativas dos consumidores não correspondiam à proteção efetivamente contratada, sobretudo em matérias relacionadas com exclusões, subseguro ou danos indiretos. 


Preparar o setor para um novo perfil de risco climático

O relatório conclui que fenómenos meteorológicos extremos deixaram de poder ser encarados como acontecimentos excecionais.

Entre as medidas recomendadas destacam-se o reforço dos planos de resposta a catástrofes, a realização de exercícios de simulação, a revisão dos modelos de avaliação de risco climático, o recurso mais intensivo a ferramentas de georreferenciação, a definição de indicadores específicos para contextos de crise e o reforço da capacidade operacional para responder a um elevado volume de sinistros em períodos curtos de tempo. 


Principais números do “comboio de tempestades”:

  • 5,3 mil milhões de euros de perdas económicas estimadas;
  • 1,4 mil milhões de euros de perdas protegidas por contratos de seguro;
  • Apenas 26% das perdas económicas estavam cobertas por seguros;
  • 218 mil sinistros participados às empresas de seguros;
  • Mais de 99% dos sinistros já foram objeto de peritagem;
  • Mais de 80% dos prejuízos estimados na habitação já foram indemnizados;
  • 91% das perdas seguras foram suportadas pelo mercado internacional de resseguro;
  • Apenas 8% das unidades empresariais tinham cobertura de perdas de exploração.

 

Aceda ao relatório "O papel do setor segurador no comboio de tempestades"

Conteúdos Relacionados