Intervenção do Presidente da ASF no Seguros Summit 2026, promovido pelo Jornal Económico
Minhas senhoras e meus senhores,
É com enorme satisfação que volto a participar na Seguros Summit, agradecendo o amável convite formulado pelo Jornal Económico. Em particular porque este evento é dedicado a um tema que considero de especial relevância para o setor segurador e para a sociedade em geral, a longevidade.
Este é aliás um tema que está no centro do plano estratégico da ASF 2026-2028. Com efeito, um dos nossos objetivos estratégicos é precisamente “Adaptar a regulação aos desafios da longevidade para promover a proteção e a autonomia dos cidadãos”. Neste contexto, o nosso desafio é criar condições regulatórias para que o mercado responda às necessidades da longevidade, priorizando enquadramentos para a "desacumulação inteligente" da poupança, para o incremento da proteção dos tomadores de seguros de saúde, designadamente através de seguros de longo prazo e para o desenvolvimento de soluções como a hipoteca inversa, garantindo mais dignidade e autonomia aos cidadãos.
Mas porquê tanta atenção a este tema? Porque nunca na história da humanidade vivemos tanto e nunca estivemos tão pouco preparados para o que isso significa.
Em Portugal, segundo dados do Eurostat, a esperança de vida à nascença tem vindo a aumentar de forma consistente, atingindo 82,5 anos em 2024, um ano acima da média da União Europeia. Este progresso é particularmente expressivo quando recordamos que, no início da década de 1980, a esperança média de vida era de 71,5 anos. Em pouco mais de quatro décadas, ganhámos cerca de onze anos de vida.
A longevidade não resulta de um único fator, mas de um equilíbrio entre saúde, condições sociais, comportamentos individuais e inovação tecnológica. É precisamente essa complexidade que torna o seu impacto tão profundo e tão desafiante de gerir.
Viver mais tempo implica lidar com maior prevalência de doenças crónicas, maior pressão sobre sistemas de saúde e pensões e, sobretudo, a necessidade de garantir qualidade de vida por mais anos. É aqui que o setor segurador pode ter um papel decisivo, ajustando produtos e serviços às necessidades de uma população mais envelhecida.
A transformação já está em curso. O setor deixa de se limitar a cobrir riscos isolados e passa a ser chamado a apoiar trajetórias de vida mais longas, que exigem autonomia e segurança financeira ao longo do tempo. Isso implica soluções mais integradas, que combinem proteção, poupança e serviços.
Uma mudança particularmente relevante é a maior proximidade entre seguros de vida e de saúde. Com o apoio da tecnologia e dos dados, o foco desloca-se de uma lógica reativa para uma abordagem mais preventiva. Já não se trata apenas de compensar riscos, mas de ajudar a evitá-los e a promover estilos de vida mais saudáveis.
Também na poupança para a reforma surgem desafios novos. Percursos profissionais mais irregulares e maior incerteza económica exigem produtos mais flexíveis e acessíveis, que se adaptem ao longo do tempo e distribuam melhor o risco entre clientes e seguradoras.
Ao mesmo tempo, começam a ganhar espaço soluções que integram diferentes necessidades numa só proposta, proteção em caso de morte, mas também apoio em doença, dependência ou cuidados prolongados. Estas ofertas são mais ajustadas à realidade atual, mas colocam um desafio adicional: a sua compreensão pelos consumidores, o que reforça a importância da literacia financeira e de uma comunicação clara.
A área dos cuidados de longa duração merece especial destaque. Trata-se de um risco difícil de antecipar e gerir, que continuará a exigir um papel relevante do Estado. Ainda assim, o setor privado pode contribuir com soluções complementares, sobretudo em situações de maior duração ou custo, muitas vezes privilegiando a permanência em casa e a autonomia.
Por outro lado, a própria ideia de reforma está a mudar. Em vez de uma rutura, começa a emergir um modelo mais gradual, em que trabalho e reforma coexistem. O setor segurador pode acompanhar esta transição, apoiando pessoas e empresas na adaptação a carreiras mais longas.
A inovação tecnológica é outra peça central desta transformação. A utilização de dados e de modelos analíticos permite conhecer melhor os riscos, antecipar necessidades e personalizar soluções. Isto traduz-se em produtos mais ajustados às trajetórias individuais, mas também levanta questões importantes.
Desde logo, a necessidade de equilibrar personalização com equidade. O uso intensivo de dados exige transparência, responsabilidade e respeito por princípios essenciais, como o acesso à proteção e a mutualização do risco. A confiança dos consumidores dependerá, em grande medida, desta capacidade de equilíbrio.
Aqui, a regulação tem um papel fundamental: não travar a inovação, mas enquadrá-la, garantindo que se desenvolve de forma segura, justa e sustentável.
Em síntese, a longevidade representa não apenas um desafio, mas uma oportunidade para repensar o setor segurador. Mais do que gerir riscos, trata-se de contribuir para vidas mais longas, mais saudáveis e financeiramente mais seguras. O verdadeiro desafio será garantir que a inovação e a tecnologia são utilizadas de forma inclusiva e responsável, transformando o aumento da esperança de vida num progresso efetivo para a sociedade.
Na Europa, a resposta do setor segurador ao desafio da longevidade tem vindo a materializar-se em várias linhas de inovação complementares.
No Reino Unido, desenvolveu-se um mercado avançado de gestão do risco de longevidade. Em termos simples, fundos de pensões e empresas podem transferir para seguradoras o risco de as pessoas viverem mais do que o esperado. Isso permite-lhes tornar mais previsíveis as suas responsabilidades futuras e libertar recursos. A principal inovação está em tratar a longevidade como um risco que pode ser gerido e transferido no mercado, trazendo maior estabilidade a compromissos de muito longo prazo.
Nos Países Baixos, observa-se uma abordagem mais centrada no cliente, baseada na criação de ecossistemas integrados para a população sénior. Algumas seguradoras têm vindo a combinar produtos de seguro com serviços de saúde, assistência e apoio domiciliário, promovendo soluções que permitem às pessoas envelhecer em casa com maior autonomia. Aqui, a inovação está na integração de diferentes dimensões, proteção, cuidados e bem‑estar, numa única proposta, orientada para prolongar a vida com qualidade e reduzir a necessidade de institucionalização.
Ao mesmo tempo, nestes dois países emergem soluções inovadoras na fase de reforma, particularmente ao nível da desacumulação, que permitem transformar a poupança acumulada em rendimento de forma flexível, combinando componentes de liquidez com mecanismos de rendimento vitalício. Esta abordagem substitui modelos rígidos por trajetórias ajustáveis ao longo do tempo, permitindo uma gestão mais eficiente do risco de longevidade e maior alinhamento com as necessidades individuais.
Em França, a inovação tem-se focado na resposta à dependência, combinando seguros com serviços de apoio. Estas soluções asseguram não só prestações financeiras em caso de perda de autonomia, mas também acesso a cuidados, apoio domiciliário e aconselhamento às famílias. A principal mais-valia está nesta ligação entre proteção financeira e apoio concreto, permitindo responder de forma mais completa a um risco crescente e difícil de prever.
Já na Alemanha, a resposta aos desafios da longevidade assenta num sistema público obrigatório, complementado por seguros de saúde privados de cuidados de longa duração. Estas soluções ajudam a colmatar lacunas, oferecendo rendimento adicional ou serviços de apoio quando a autonomia diminui. Este modelo de complementaridade permite partilhar responsabilidades entre o Estado e o setor privado e favorece respostas que valorizam a permanência no domicílio e a qualidade de vida numa sociedade cada vez mais longeva.
Em Espanha e em Itália, observa‑se uma dinâmica de desenvolvimento particularmente acelerada, impulsionada pelo rápido envelhecimento da população. Nestes mercados, tem vindo a reforçar‑se a aposta em serviços direcionados para seniores, na integração entre saúde e seguros e em soluções de poupança mais flexíveis. Embora ainda não apresentem o mesmo grau de sofisticação de outros países europeus, revelam um dinamismo crescente e uma clara evolução para modelos mais adaptados a vidas mais longas.
Fora da Europa, a China destaca-se pela forma como tem respondido ao envelhecimento da população em larga escala. Algumas seguradoras têm vindo a criar verdadeiros “campus de longevidade”, que integram habitação, cuidados de saúde e serviços de bem‑estar. O acesso a estas soluções está muitas vezes ligado a produtos de poupança ou seguros de vida, ligando a preparação financeira ao apoio na velhice. A principal inovação está nesta abordagem integrada, em que o seguro deixa de ser apenas proteção e passa a garantir acesso a um conjunto de respostas que acompanham a vida mais longa.
Em Portugal, o desenvolvimento tem sido mais gradual, mas já visível. Na poupança para a reforma, têm surgido soluções mais flexíveis, que permitem não só acumular poupança, mas também utilizá-la de forma gradual, através de resgates parciais ou rendimentos ao longo do tempo.
Na área da saúde, alguns seguradores têm reforçado os serviços associados, com programas de prevenção, acompanhamento de doenças crónicas e telemedicina, promovendo uma gestão mais contínua da saúde ao longo da vida. Em alguns casos, estes serviços incluem também apoio domiciliário, aproximando-se de soluções mais integradas que ajudam a manter a autonomia por mais tempo.
Nos cuidados de longa duração, apesar de ainda haver pouca oferta autónoma, começam a surgir soluções que combinam seguros com serviços de assistência, sobretudo para situações de dependência ou necessidade de cuidados em casa. Ao mesmo tempo, têm crescido as residências sénior e formas de habitação assistida, por vezes ligadas a serviços de saúde e bem‑estar. Ainda que nem sempre integradas com seguros, estas respostas apontam para uma tendência clara: a aproximação entre proteção financeira, cuidados e serviços, acompanhando melhor uma vida cada vez mais longa.
Este desenvolvimento mais gradual em Portugal reflete alguns fatores estruturais, como a menor escala do mercado, o peso ainda significativo dos sistemas públicos e níveis mais baixos de poupança de longo prazo. Ainda assim, estas condições não constituem um bloqueio, mas sim um ponto de partida diferente, que poderá moldar uma trajetória própria.
Essa evolução passará, provavelmente, por uma combinação de fatores: maior colaboração entre setores, uso da tecnologia e desenvolvimento progressivo de soluções mais integradas. Não existe um modelo único, mas antes um caminho de adaptação à realidade do nosso mercado.
Para que o setor segurador possa responder melhor ao desafio da longevidade, julgo relevante que sejam efetuados alguns ajustamentos no enquadramento legislativo e regulamentar. Destaco três prioridades: maior flexibilidade na fase de desacumulação dos produtos de poupança para a reforma; um enquadramento mais claro e estimulante para soluções de dependência e cuidados de longa duração; e regras que permitam aproveitar melhor o potencial dos dados e da tecnologia, garantindo simultaneamente confiança e proteção dos consumidores.
A isto soma-se a importância de facilitar a integração entre seguros e serviços, bem como de criar condições para o investimento em ativos de longo prazo ligados à economia da longevidade. No essencial, trata-se de adaptar o quadro atual, e não de o reinventar, para permitir mais inovação e melhores respostas a uma sociedade que vive cada vez mais tempo.
Em suma, o setor segurador tem uma oportunidade muito relevante: afirmar-se como um parceiro na gestão de um dos grandes riscos das sociedades modernas.
Para isso, haverá uma condição essencial, a confiança. Num contexto de decisões de longo prazo, os consumidores precisam de clareza, transparência e sentido de compromisso. Mais do que vender produtos, será fundamental construir relações duradouras, centradas nas necessidades das pessoas.
Se conseguirmos fazê-lo, estaremos não apenas a responder ao desafio da longevidade, mas a transformar este progresso num verdadeiro ganho para a sociedade.
Espero que estejamos à altura desse desafio.
Muito obrigado.