Intervenção da Administradora da ASF, Dra. Carla Sá Pereira, na conferência sobre “O papel dos seguros na gestão dos riscos das alterações climáticas – inovação e desenvolvimento”, promovida pelo Banco de Cabo Verde
Bom dia a todos,
Permitam-me, em primeiro lugar, dirigir uma saudação especial ao Senhor Governador do Banco de Cabo Verde e, na sua pessoa, a toda a equipa aqui presente, aproveitando para felicitar o Banco pelo quinquagésimo aniversário do início pleno das suas atividades.
Gostaria também de cumprimentar os representantes do mercado e da academia, aqui presentes, bem como todos os participantes neste evento que assinala esta ocasião especial.
Agradeço, de forma muito especial, o amável convite do Banco de Cabo Verde para partilhar a minha perspetiva enquanto keynote speaker num evento centrado no papel dos seguros na gestão dos riscos das alterações climáticas, um tema particularmente atual e cuja relevância, estou convicta, nunca foi tão evidente como hoje.
É, por isso, com muito gosto que aqui participo.
Minhas senhoras e meus senhores,
Estruturei esta reflexão em quatro pontos, começando pelo mercado internacional dos seguros, com referência aos principais indicadores do contexto atual.
No segundo ponto, abordarei as evoluções recentes que decorrem das mudanças dos fatores de risco e o seu impacto no mercado segurador.
Farei também referência, no terceiro ponto, ao enquadramento legal e regulamentar dos riscos climáticos, que nos trazem hoje aqui, e às boas práticas.
E terminarei, num quarto ponto, com os desafios atuais e propostas de soluções, incluindo as principais inovações e os desenvolvimentos no mercado internacional, no âmbito do qual farei também referência ao “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas”, a solução pensada para os principais riscos catastróficos no mercado português.
Começando, então, pelo contexto atual, penso que estaremos todos de acordo em que as alterações climáticas constituem hoje um dos principais fatores de mudança a nível global. O mundo está em mudança, e esta reflete-se hoje, de forma cada vez mais nítida, no mercado segurador.
Não me refiro a um cenário distante, nem a uma projeção para 2050 ou para o final do século. Refiro-me ao presente.
Os últimos anos consolidaram um novo patamar de perdas seguras associadas a catástrofes naturais. Em 2024, essas perdas ascenderam a cerca de 140 mil milhões de dólares. Tratou-se do terceiro ano mais dispendioso para a indústria desde 1980, com os eventos meteorológicos a explicarem perto de 97% do total.
O mais revelador, contudo, não são os valores de anos isolados, mas o padrão da sua regularidade: 2024 foi o quinto ano consecutivo acima dos 100 mil milhões de dólares em perdas seguras.
Em 2025, mesmo sem um grande furacão, a habitual frequência de tempestades convectivas, a que acresceram os grandes incêndios em Los Angeles, levaram as perdas seguradas a cerca de 107 mil milhões de dólares — gerando o sexto ano consecutivo acima daquele patamar.
Perante estes números, e numa linguagem mais estatística, podemos concluir que aquilo a que durante anos chamámos a cauda da distribuição passou, simplesmente, a fazer parte do corpo da distribuição.
A tendência estrutural é inequívoca: de acordo com a Swiss Re, nas últimas três décadas, as perdas seguras por catástrofes naturais cresceram, em termos reais, a um ritmo de 5% a 7% ao ano, muito acima, portanto, do crescimento da própria economia.
Contudo, por trás destes valores está ainda um gap de proteção que continua a ser a maior fragilidade de todo o sistema. Em 2024, das perdas económicas globais de cerca de 318 mil milhões de dólares, mais de metade, 57%, não estavam seguras.
Este panorama não resulta apenas da soma dos eventos para um conjunto de países. Permitam-me trazer a esta reflexão a experiência portuguesa recente.
Entre 22 de janeiro e 8 de fevereiro deste ano, Portugal foi atingido por um verdadeiro “comboio de tempestades”, que incluiu as depressões Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta, destacando-se a depressão Kristin, que atravessou Portugal continental na madrugada de 28 de janeiro e foi considerada a mais violenta, gerando rajadas de vento à superfície superiores a 170 km/h e chegando em alguns locais a ultrapassar os 200 km/h.
Para contextualizar a severidade deste evento, comparando-o com fenómenos recentes da mesma natureza, podemos tomar como referência a tempestade Martinho, ocorrida em março de 2025, cujos danos económicos foram estimados entre 215 e 270 milhões de dólares. Destes, cerca de 70 milhões ficaram a cargo do mercado segurador, na sequência da aproximadamente 27 mil sinistros, maioritariamente relacionados com seguros de habitações e de atividades comerciais e industriais.
Por sua vez, a tempestade Leslie, em outubro de 2018, representou danos económicos estimados na ordem dos 135 a 170 milhões de dólares, dos quais perto de 80 milhões corresponderam a indemnizações ao abrigo de contratos de seguro que deram origem a 28 mil sinistros, também neste caso correspondentes maioritariamente a seguros de habitações e de atividades comerciais e industriais.
O recente “comboio de tempestades” ultrapassou todos os eventos meteorológicos portugueses modernos em danos económicos, estimados atualmente em cerca de 7 mil milhões de dólares. Do lado do mercado segurador, registam-se mais de 210 mil sinistros com perdas seguras estimadas na ordem dos 1,5 mil milhões de dólares. Ou seja, temos cerca de 5,5 mil milhões de dólares não seguros, aproximadamente 540 mil milhões de escudos cabo-verdianos, para termos uma noção mais exata do impacto na sociedade: quase 80% da totalidade das perdas económicas.
Passando às evoluções recentes e à mudança dos fatores de risco, o segundo ponto da minha intervenção.
Para compreender o que está verdadeiramente a mudar, regresso à própria linguagem do risco. Este resulta do produto de três fatores: perigosidade, vulnerabilidade e exposição. Não é apenas um deles que se está a deslocar — são os três em simultâneo e no mesmo sentido. E é essa simultaneidade que torna o problema tão desafiante.
A perigosidade está a aumentar, tanto na frequência como na severidade dos eventos. Destaco um deslocamento que determina que uma fatia crescente das perdas provém já dos chamados riscos secundários, ou “perigos não-pico”. Estes correspondem a tempestades convectivas, cheias urbanas, incêndios rurais. Só em 2024, estes perigos representaram cerca de 67 mil milhões de dólares em perdas seguras. Constituem eventos individualmente menos agudos, mas que, pela sua maior frequência, vão gerando danos de uma forma mais contínua.
A vulnerabilidade, por seu turno, não acompanhou, ou seja, não compensou, o ritmo: os progressos na adaptação climática têm sido limitados. Continuamos a construir, a reabilitar e a ordenar o território como se o clima do futuro fosse idêntico ao clima do passado. Cada edifício ou infraestrutura que não se adapte à nova realidade climática é uma vulnerabilidade herdada.
Ao mesmo tempo, a exposição mantém uma trajetória continuada de acumulação de bens e de pessoas em zonas de risco elevado. Litorais, leitos de cheia, interfaces urbano-florestais concentram grande parte do valor económico que é pedido ao setor segurador que proteja.
No conjunto, as alterações climáticas não se limitam a tornar o risco maior, alteram a própria configuração. As alterações climáticas alteram as distribuições de probabilidades de cada risco, alteram as correlações entre riscos e tornam a experiência passada cada vez menos fiável para estimar o futuro. Para um setor como o segurador, que se construiu identificando padrões e tendências em séries históricas, esta é uma transformação profunda, que exige uma abordagem evolutiva.
Perante estas alterações, e passando ao terceiro ponto, os reguladores estão a fomentar uma maior integração dos riscos climáticos nos sistemas de governação. Esta trajetória reconfigura a forma como os riscos climáticos entram na gestão, no capital e na própria supervisão das empresas de seguros.
No regime prudencial aplicável a nível europeu, o regime “Solvência II” –, o tratamento dos riscos de sustentabilidade ganhou densidade, sobretudo por via da revisão recentemente aprovada. A revisão consagra de forma explícita a análise de cenários climáticos no ORSA – exercício de autoavaliação de riscos e solvência –, incluindo cenários com diferentes trajetórias climáticas, em que o sobreaquecimento global se mantém abaixo dos 2° C e em que os ultrapassa significativamente.
Ainda no plano regulatório prudencial, a autoridade europeia de seguros, a EIOPA, vem também investigando potenciais evidências para um tratamento de capital dedicado em Pilar I, relativo aos riscos quantitativos, em função de atributos climáticos. A ideia base é a de que exposições com maiores riscos climáticos possam exigir mais capital, fruto do maior risco. Contudo, a sua materialização ainda depende de concretização futura adicional. É uma conclusão prudente: reconhece-se que o risco existe, mas não foi ainda possível calibrá-lo com a confiança que um requisito de capital exige. Assim, o foco primordial tem consistido no reforço do Pilar II, que diz respeito aos requisitos qualitativos e à governação, enfatizando as necessidades de progresso na governação e gestão de risco. Paralelamente, prossegue o processo regular de recalibração dos parâmetros de catástrofe natural na fórmula-padrão, e a constatação de que os modelos de risco ainda ignoram, na maioria dos casos, o efeito mitigador das medidas de adaptação.
As boas práticas emergentes assentam, em larga medida, em dois instrumentos complementares: os cenários climáticos e os stress tests. Os cenários do Network of Central Banks and Supervisors for Greening the Financial System (NGFS) — a rede que reúne atualmente mais de 140 bancos centrais e supervisores financeiros — permitem um referencial comum, com várias gerações de cenários climáticos futuros, plausíveis e distintos, disponibilizados ao longo do tempo. O exercício de análise de cenário climático “Fit-for-55”, conduzido pelas autoridades europeias de supervisão e pelo BCE, consistindo numa análise de sensibilidade top-down, conjunta a vários segmentos do setor financeiro (incluindo o setor segurador), mostrou que o risco climático de transição combinado com choques macroeconómicos pode amplificar perdas de forma relevante.
Sem prejuízo destes progressos na compreensão prospetiva do risco, é fundamental recordar a elevada incerteza que persiste. Estes cenários são instrumentos de raciocínio sob incerteza, não previsões. Este não é, contudo, um argumento para a inação, mas sim um fundamento para a prudência e necessidade de revisão contínua.
Os reguladores estão a nutrir as condições para uma integração crescente destes riscos nos sistemas de governação, sendo essa necessidade de integração irreversível. A questão já não é se o risco climático deve entrar na governação das empresas de seguros, mas sim o rigor, completude e rapidez com que o faz.
Passando ao quarto e último ponto, desafios e possíveis soluções, importa salientar que a questão decisiva é continuar a conseguir transferir o risco, a partir da economia e das famílias, a um preço comportável, e não apenas medi-lo de forma rigorosa.
É precisamente nesse aspeto que o problema se torna social e económico, e não apenas técnico. Atualmente, e como vimos, apenas uma parcela minoritária das perdas se encontra segura. Na ausência de ação, esse gap irá aumentar, fruto das alterações climáticas. Contudo, na ausência de adaptação climática palpável e em escala, essas mesmas alterações climáticas tendem a tornar a transferência de risco mais onerosa, o que se reflete diretamente no custo dos prémios, e no esforço que o seu pagamento representa para os rendimentos disponíveis das famílias e empresas.
O mercado segurador tem respondido com inovação na transferência de risco: soluções paramétricas, obrigações de catástrofe e, de forma mais ampla, os valores mobiliários ligados a seguros. O mercado de obrigações de catástrofe tem batido sucessivos recordes, com volumes de emissão históricos, de cerca de 25 mil milhões de dólares, em 2025 (batendo o recorde do ano anterior, de cerca de 18 mil milhões de dólares), e um montante total em aberto superior a 60 mil milhões de dólares, no final desse ano. O volume total tem-se mantido em crescimento nos primeiros meses de 2026.
Os instrumentos de natureza paramétrica vêm também provando o seu valor, com a agilização da velocidade de pagamento às populações afetas a ser, ela própria, uma forma de resiliência.
Estas soluções inovadoras que o mercado segurador tem encontrado, inclusivamente com a transferência de riscos climáticos para os mercados financeiros, não dispensam, porém, camadas de backstop e esquemas de partilha do risco entre o setor privado e a esfera pública. Em abril de 2026, a EIOPA e o Mecanismo Europeu de Estabilização (ESM) avançaram com uma análise de pool de riscos catastróficos ao nível europeu, contemplando camadas de apoio público que podem assentar, por exemplo, em mecanismos baseados de empréstimo, previamente acordados junto de parceiros como bancos de fomento. Há riscos de cauda que os balanços privados não conseguem suportar isoladamente, e cuja não-cobertura acaba, de uma forma ou de outra, por impactar a esfera pública. Para enfrentar essas situações, estas camadas de backstop baseadas em empréstimos contingentes (à ocorrência de um evento catastrófico), a condições pré-acordadas, são uma solução a ter em conta.
É precisamente nesta articulação entre o mercado segurador e a esfera pública que se incluem os recentes desenvolvimentos para o estabelecimento de um sistema de resiliência contra catástrofes naturais em Portugal – o “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas”. Esta solução procura dar resposta direta a vários desafios através das oportunidades de inovação que referi anteriormente.
O “Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas” é um sistema assente em três pilares: resiliência, solidariedade e adaptação. Dirige-se a riscos de catástrofe natural, incluindo risco sísmico e riscos climáticos. O primeiro pilar inclui a estrutura financeira para a gestão dos riscos, promovendo a diversificação e a gestão eficiente de riscos de uma pool alargada. O segundo pilar foca-se na inclusividade do sistema, com soluções previstas para a resolução das dificuldades da acessibilidade ao custo dos prémios por parte das famílias financeiramente mais vulneráveis. O terceiro pilar foca-se na adaptação climática, de modo a conter o potencial alargamento adicional das perdas económicas decorrentes de catástrofes, promover comportamentos responsáveis, e cimentar uma resposta conjunta entre redução intrínseca dos riscos e a preparação de uma estrutura financeira para financiar a resposta às perdas que persistam.
Para dar resposta às lacunas de proteção financeira existentes, é necessário aumentar a penetração dos seguros, mas também providenciar mecanismos e incentivos que permitam conter a acumulação adicional de bens nas zonas de maior risco e mitigar as debilidades que existem no edificado. Em suma, é necessário caminhar na resolução do problema atual enquanto prevenimos que este se agudize adicionalmente, sobretudo em resultado das alterações climáticas.
Este sistema visa uma distribuição das consequências das catástrofes naturais entre todas as partes: agentes económicos, empresas de seguros e Estado – num contexto de sustentabilidade atuarial, que permita a saúde financeira de um sistema que pratica prémios baseados no risco subjacente. Desta forma, assegura-se uma responsabilização transversal para enfrentar um desafio comum, com o benefício de uma resposta assente em preparação prévia, ao invés de resposta desencadeada pela reação em urgência a um evento catastrófico já ocorrido.
Para concluir, deixo a seguinte reflexão:
O setor segurador nunca está verdadeiramente de fora das consequências dos riscos climáticos. Em primeira linha, e de forma mais óbvia, está exposto como subscritor de riscos quando suporta as perdas. E está exposto como investidor de longo prazo, quando os ativos que detém sofrem o risco físico e o risco de transição.
Mas de uma forma indireta – e que pode passar mais despercebida – está exposto porque as famílias e as empresas são os seus parceiros de atividade. Se estes se mantiverem desprotegidos face aos riscos climáticos, as perdas diretas decorrentes do pagamento de indemnizações serão menores, mas como será o futuro depois do evento catastrófico? Quais serão os efeitos para o negócio segurador da disrupção de atividade económica e do emprego, do recuo da capacidade de investimento e consumo, da destruição de bens seguros face a outros riscos, do retrocesso na capacidade de contratar outros seguros, como os de saúde, das poupanças investidas junto do setor segurador a serem resgatadas de emergência para fazer face a despesas de primeira necessidade, desencadeando fortes riscos de liquidez?
Estas são apenas algumas das consequências da passividade face aos riscos climáticos.
Finalizo então com a questão: estamos dispostos a reconhecer as mudanças em curso e a agir enquanto a resposta ainda pode depender de nós? O setor segurador vai escolher lidar com as alterações climáticas de uma forma ativa, ou absorver as consequências de uma ação insuficiente?
Muito obrigada pela vossa atenção.